Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Imaginari, Imago e Imitari


A sombra da árvore abrigam a fantasia dela enquanto o sol vai contaminando o seu redor de realidade. Nasce  um outro sol, uma outra lua, outras estrelas e outro céu. Sorri. Dá um passo na direcção dele e descansa, finalmente.
"Beatriz, estás a falar com quem?" Ela não ouve. A voz que a chama já não pertence ao seu Mundo. Sorri. Rodopia e faz uma vénia ao seu novo destino. O banco do jardim é a sua espera, e ainda tem de esperar muitas horas, muitos dias e muitos anos. "Acorda! Bia, acorda!" Uma canção suave diz-lhe que adormeceu e resolve levantar-se e viver. Depois da preguiça e do rodopio matinal olha em volta, "Ah, cá estás tu. Vamos viver!" Junta a sua mão com a barbatana do pinguim e segue a ruela de cimento vermelho com destino ao seu Mundo à parte.
Não vê a pedra. Esbarra nela e como o picar de um alfinete, cai. As lágrimas escorrem pela face até aos lábios cor de rosa. Lembra-se. As lágrimas continuam a escorrer. Com um dedo fura a cova do seu sorriso e sorri. E ouve a sua canção, aquela que a faz sorrir quando chora. Aquela canção que a faz levantar-se depois de cair. A canção que o pinguim lhe ensinou. 
O sol vence a sombra. Dois braços fortes e masculinos trazem-na de volta à vida. Abre os olhos e vê as rugas que lhe mostram parte do que é e do que vai ser um dia. Deixa-se abraçar pelo carinho e, num momento só, chora e ri. "Adormeceste, não foi?", perguntou-lhe o dono do abraço. "Sim, sonhei com ela, avô! Brinquei com a Beatriz, dançei com o pinguim, rodopiei, cantei... Sei uma nova canção!", disse ela entusiasmada com as suas novidades. "E o que te ensina a canção?", perguntou curioso. E ela respondeu, prontamente: "Ensinou-me a sorrir quando estou triste."

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

Vermelho

Um dia ela decidiu que ia ser perfeito. Não o perfeito ilusório, não o perfeito das borboletas na barriga, dos corações palpitantes e das canções de amor. Um dia, foi em Dezembro. Um dia frio, com sol de inverno. Uma noite fria, com o calor da lareira. 


O barulho da lenha a queimar, com as brasas a explodir e a cair como se fossem fogo de artificio, distraiu-a por  momentos. Ouviu o grito silencioso dos corações que ali viviam. Os soluços do choro não vieram. Os olhos tornaram-se mais frios e indiferentes. As brasas adormeceram, os troncos, em parte queimados, separaram-se, deixando apenas uma brisa quente sem fogo vivo. 


Agora o fogo vivo que ela vê, é o do vermelho das suas unhas quando as pinta. É o do casaco vermelho que pensa sempre comprar, mas acaba sempre por não o fazer. É o do batom vermelho que traz consigo na mala à espera da vontade de com ele enfeitar os seus lábios. É o vermelho da sua máquina de escrever, aquela que nunca arranjou nem pintou. É o do seu coração vermelho, aquele que teima em fechar-se e transformá-la numa espalha-brasas. É o vermelho das suas lágrimas. 

As cortinas vermelhas fecham-se dando lugar aos aplausos ausentes e silenciosos que ela fixa na sua mente. As lágrimas confundem a sua visão e ela sorri de tristeza, "Só quando for perfeito."